Apoio à disciplina de Espaço Euro-Atlântico

Apresentação

A reconstituição da aliança ocidental, que se define historica e politicamente pela emergência de um espaço euro-atlântico, congruente com os valores liberais da civilização europeia, tem os seus prolegómenos contemporâneos na decisão da Guerra de 1914-1918, quando a vitória das democracias, depois da retirada da Rússia, foi assegurada pela intervenção dos Estados Unidos - a primeira vez que uma potência externa não-europeia determinou o resultado de uma guerra na Europa, bem como a primeira vez que os Estados Unidos impõem o seu poder para resolver as disputas da velha Europa - e, ao mesmo tempo, neutralizou, ou suspendeu, o programa estratégico da autocracia alemã, que procurava unificar a Europa continental.

O fim da Grande Guerra, todavia, não corresponde a uma fórmula de ordenamento estável do sistema internacional, quer pelo distanciamento dos Estados Unidos, quer pela exclusão da Alemanha e da União Soviética. Pelo contrário, marca o declinio irreparável da Grã-Bretanha e do seu regime da balança do poder multipolar e o principio da competição tripolar entre os Estados Unidos, a Alemanha e a Rússia soviética, que se vão tornar as principais potências do sistema internacional durante os vinte anos seguintes de interregno. Na disputa entre as três grandes potências estão em jogo ideias, principios e modelos de ordem internacional opostos : a Alemanha hesita entre a revolução racista, a unificação continental e a projecção maritima, a União Soviética entre a revolução comunista, a aliança continental e o dominio euro-asiático, os Estados Unidos entre o retraimento hemisférico, o internacionalismo democrático e a hegemonia maritima euro-atlântica. Entre 1939 e 1945, numa sucessão de alianças e de divisões, a lógica da competição tripolar reduz o quadro das possibilidades estratégicas, enquanto a guerra torna mais precisos os programas das três grandes potências : a aliança entre a Alemanha e a União Soviética, que marca o inicio da guerra europeia, não encontra uma fórmula de estabilidade que resolva a sobreposição dos seus programas estratégicos, e os Estados Unidos, para sairem vencedores da guerra entre as duas revoluções totalitárias, têm de se aliar com uma das duas potências continentais rivais.

A II Guerra mundial tem dois vencedores : a resolução do dilema tripolar é uma divisão bipolar, que vai opor, desde 1945, os Estados Unidos e a União Soviética. As duas grandes potências vencedoras dividem-se e dividem entre si a Alemanha e a Europa, que se torna o centro da sua competição estratégica. A destruição moral da Alemanha, por um lado, e a fórmula estratégica da Guerra Fria - "paz impossivel, guerra improvável" - por outro lado, tornam possivel a ressurgência de uma aliança ocidental estável, assente na rejeição dos totalitarismos e dos imperialismos continentais e na contenção da União Soviética e da dupla ameaça totalitária e nuclear. Essa aliança vai revelar o seu modelo de ordenamento constitucional do espaço euro-atlântico como uma aliança das democracias, institucionalizada na Aliança Atlântica e nas Comunidades Europeias, que prevalece sobre o modelo alternativo da União Soviética, sobretudo depois da cisão do movimento comunista internacional ter demonstrado o fracasso da sua tentativa de dominação imperialista do espaço euro-asiático. No fim da Guerra Fria, a unificação da Alemanha antecipa a decomposição da União Soviética e a vitória dos Estados Unidos.

Durante a década de transição no post-guerra fria, a preponderância dos Estados Unidos como a única grande potência internacional torna possiveis formas alternativas de ordenamento, entre a unificação e a fragmentação do sistema internacional. Essas possibilidades estrtatégicas podem tornar supérfluo o espaço euro-atlântico, cuja autonomia é garantida pela aliança entre as democracias ocidentais, entre os Estados Unidos e a Europa ocidental, bem como negar a sua centralidade estratégica no sistema internacional, quer por efeito da concentração unipolar, quer como consequência da regionalização multipolar do sistema internacional. Mas também o podem alargar e consolidar, quer pela sua expansão, de modo a incluir no mesmo espaço das alianças ocidentais não só os Estados Unidos e a Alemanha, mas também a Rússia, quer pela sua institucionalização para integrar o conjunto das democracias de tipo ocidental numa mesma aliança internacional. Entre a unipolaridade multipolar, a federação das democracias e o império liberal, o 11 de Setembro, que serviu para descobrir a crise do antigo modelo de ordenamento internacional, deixou em aberto o futuro do espaço euro-atlântico e da aliança ocidental.